A história ensina, mas nem todo gestor aprende. Em 1789, a Queda da Bastilha marcou o momento em que o povo francês deixou claro que não aceitaria mais um poder distante, insensível e fechado em si mesmo. A Bastilha não caiu por sua força militar, mas pelo que representava: um governo que já não dialogava com a realidade das ruas.
Séculos depois, guardadas as devidas proporções, Alagoinhas vive seu próprio abismo entre gestão e população.
A administração de Gustavo Carmo parece cada vez mais enclausurada em um modelo de poder que fala muito, entrega pouco e escuta quase nada. A cidade real, aquela da feira abandonada, do trabalhador informal sufocado, da cultura desprezada, não aparece nos discursos oficiais. Mas grita nas ruas.
A recente suspensão de eventos tradicionais, como o São João, escancara uma narrativa conveniente: a culpa é sempre da chuva, da crise, do passado. Nunca da gestão. Enquanto isso, quem paga a conta é o ambulante, o pequeno comerciante, o artista local, gente que não tem gabinete com ar-condicionado nem coletiva de imprensa para justificar fracassos.
Na França pré-revolucionária, o povo também ouvia explicações. Também recebia promessas. Também era ignorado. Até que decidiu agir.
Em Alagoinhas, a revolta não virá com tochas e guilhotinas, até porque vivemos em um Estado democrático. Mas ela já começou a se manifestar de outras formas: na indignação popular, na perda de confiança e no desgaste político crescente.
O problema de toda gestão que se comporta como uma “Bastilha” é simples: ela acredita que seus muros são fortes o suficiente para conter a realidade. Não são.
Quando o poder se afasta demais do povo, ele não cai de uma vez, ele apodrece por dentro, lentamente, até ser derrubado pelo peso da própria rejeição.
A lição da Revolução Francesa continua atual: nenhum governo sobrevive sustentado apenas por narrativa. Sem legitimidade popular, qualquer gestão, cedo ou tarde, encontra seu 14 de julho.
E em Alagoinhas, ao que tudo indica, o calendário político já começou a contar.