Há mais de dois anos, Alagoinhas convive com um viaduto interditado, uma ferida aberta no coração da cidade. O que deveria ser uma obra de requalificação estrutural ou, no mínimo, uma decisão definitiva entre reforma ou demolição, transformou-se em um símbolo escancarado da inoperância administrativa.
A estrutura apodrece a olhos nus. Rachaduras se multiplicam, o medo da população cresce e a insegurança virou rotina. Não é exagero: é abandono. Enquanto isso, a gestão municipal trata o problema com naturalidade burocrática, como se o risco de desmoronamento fosse apenas mais um item em planilha.
Segundo o prefeito Gustavo Carmo, licitações desertas são “normais” em obras desse porte. Curioso. Muito curioso. Principalmente quando, em outras licitações locais, tudo se resolve da noite para a madrugada, com uma eficiência quase milagrosa. Para uns, entraves técnicos; para outros, tapete vermelho.
Recentemente, o governo do Estado tentou entrar em cena com pompa. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) assinou uma ordem de serviço, celebrada por aliados como se fosse a solução definitiva. Mas ficou só nisso: ordem. Nenhuma execução, nenhuma máquina no chão, nenhum prazo concreto. Foi poeira, e daquelas que o vento levou na primeira chuva. Política em sua forma mais previsível: promessa, foto oficial e esquecimento.
O fato é que essa obra carniça virou um verdadeiro elefante branco. Sua própria existência já é questionável: não melhora a mobilidade urbana, não cumpre função estratégica e, à noite, o entorno se transforma em território da insegurança total. Um monumento ao desperdício e ao descaso, agora dividido entre prefeitura omissa e Estado performático.
Alagoinhas vive hoje um dilema cruel: ou acorda para a ineficiência administrativa que ela mesma ajudou a construir nas urnas, ou segue dormindo em berço esplêndido, aguardando passivamente os próximos capítulos de uma tragédia anunciada.
Depois, quando o pior acontecer, não adiantará fingir surpresa.
Desperta, Alagoinhas.
Nilton Vasques Carvalho
Jornalismo com opinião, sem maquiagem e sem medo da verdade. DRT 7960/BA