Em Alagoinhas, o discurso da esquerda parece cada vez mais distante da prática administrativa. O governo do prefeito Gustavo Carmo vai consolidando um modelo que lembra exatamente aquilo que o próprio PT sempre jurou combater: terceirização desenfreada, contratos milionários, dependência de aluguel e afastamento completo das bases populares.
Ao analisar o edital da SEDUC (TR nº 14/2026), fica evidente o tamanho da contradição. Onde foi parar a defesa histórica da agricultura familiar? Onde está o compromisso com o pequeno produtor rural tão defendido em palanques, seminários e campanhas eleitorais? O mesmo grupo político que sempre discursou em defesa da comida da terra agora abre espaço para um modelo que concentra tudo nas mãos de terceirizadas.
E o impacto não é apenas ideológico. É social. É humano.
As merendeiras, cozinheiras e profissionais técnicas que conhecem a realidade das escolas municipais assistem ao avanço da terceirização como quem vê o próprio futuro sendo colocado em risco. O governo que deveria proteger os trabalhadores parece preferir entregar a alimentação escolar a empresas privadas, enquanto quem construiu o serviço público fica inseguro e desvalorizado.
Para os trabalhadores locais: incerteza.
Para os produtores rurais: abandono.
Para as terceirizadas: tapete vermelho.
A ironia é cruel. O PT de Alagoinhas virou aquilo que antes criticava com veemência. O partido que combatia privatizações, contratos inchados e dependência empresarial hoje administra editais que parecem feitos sob medida para afastar o pequeno produtor e ampliar o espaço das empresas intermediárias.
E as contradições não param.
Enquanto a cidade enfrenta surtos de arboviroses, problemas estruturais e cobranças crescentes na saúde pública, a prioridade administrativa parece ser acelerar os festejos juninos. Foi lançado edital para captação de recursos da festa, levantando dúvidas inevitáveis: existe tempo hábil para planejamento responsável? A emergência sanitária deixou de ser prioridade? Os ambulantes terão espaço ou verão grandes estruturas privadas dominarem o evento?
Tudo isso enquanto contratos seguem sendo publicados. Só hoje, mais um contrato por inexigibilidade para alimentação escolar no valor de R$ 1.335.000,00.
A gestão fala em modernização. Mas modernizar não pode significar substituir o povo por contratos.
No fim, fica a sensação de que o governo municipal trocou a defesa popular pela burocracia terceirizada, a agricultura familiar pelos grandes contratos e a militância histórica pela sobrevivência política.
“Casa de ferreiro, espeto de pau” talvez nunca tenha feito tanto sentido em Alagoinhas.