A novela dos respiradores fantasmas da pandemia voltou ao centro do debate político e jurídico no país. A Procuradoria-Geral da República (PGR) defendeu o envio ao Supremo Tribunal Federal (STF) da investigação sobre a compra de respiradores realizada pelo Consórcio Nordeste em 2020, negócio que até hoje simboliza um dos episódios mais nebulosos da gestão da crise sanitária no Brasil.
O contrato, firmado durante o auge do desespero causado pela Covid-19, previa a compra de 300 respiradores ao custo de R$ 48 milhões. O dinheiro foi pago antecipadamente. Os respiradores? Nunca apareceram.
Na época, o Consórcio Nordeste era presidido pelo então governador da Bahia, Rui Costa. Agora, a PGR aponta suspeitas de ocultação de patrimônio e possível lavagem de dinheiro envolvendo os recursos da operação, levantando a hipótese de que parte do montante possa ter sido desviada para fora do alcance das autoridades.
Enquanto milhões de brasileiros enterravam familiares e enfrentavam o colapso da saúde pública, o dinheiro dos respiradores evaporava sem deixar oxigênio, sem equipamentos e sem respostas convincentes.
A Polícia Federal continua tentando rastrear o destino dos recursos, numa investigação que parece caminhar entre silêncio institucional, burocracia e blindagens políticas. Caberá ao ministro Og Fernandes, do STJ, decidir se o caso será remetido novamente ao STF.
O episódio escancara uma pergunta que até hoje incomoda: como um contrato milionário foi fechado sem garantias mínimas, com pagamento antecipado e envolvendo uma empresa sem histórico robusto no setor médico? E mais: quem vai responder politicamente por isso?
Até agora, Rui Costa permanece em silêncio.
Nos bastidores, aliados tentam tratar o caso como “narrativa da oposição”. Mas a realidade é dura: o povo lembra que, em plena pandemia, faltava respirador nos hospitais enquanto R$ 48 milhões desapareceram num negócio que virou símbolo nacional de incompetência, suspeita e impunidade.
O escândalo dos respiradores do Consórcio Nordeste deixou de ser apenas um erro administrativo. Tornou-se um retrato cruel de como a emergência sanitária também abriu espaço para decisões obscuras, contratos questionáveis e uma conta que, no fim, sempre sobra para a população.