*Quando a hegemonia vira arrogância*
O PT decidiu rasgar a própria história política na Bahia ao impor uma chapa “puro-sangue” e descartar, sem cerimônia, um aliado que ajudou a sustentar o projeto petista por quase 20 anos. A exclusão do senador Ângelo Coronel não é estratégia, é arrogância institucionalizada.
Coronel não foi um figurante no teatro do poder. Foi base, foi escudo e foi voto quando o PT precisou. Serviu enquanto convenceu, articulou e garantiu governabilidade em Brasília. Agora, tornou-se inconveniente. O recado é brutal e cristalino: aliados não são parceiros, são peças descartáveis.
A decisão revela um PT fechado em si mesmo, intoxicado pela sensação de dono do estado, incapaz de lidar com divergências e avesso à gratidão política. Ao optar por Rui Costa e Jaques Wagner como donos das vagas ao Senado, o partido sacrifica alianças, implode pontes e empurra um senador competitivo direto para o colo da oposição.
O prejuízo não é apenas de Ângelo Coronel, é do PSD, é de Otto Alencar e é da própria base governista, agora fragilizada e ressentida. Otto perde um aliado de décadas; o PT perde a narrativa de frente ampla; e Jerônimo Rodrigues, já marcado por um governo fraco, paga a conta de uma decisão que não foi dele, mas que cairá no seu colo.
Se Ângelo Coronel migrar para o campo de ACM Neto, não será traição, será consequência. Traição foi o que o PT fez com quem ajudou a mantê-lo no poder. ACM Neto e Paulo Azi não precisam fazer esforço: o PT está entregando o desgaste de bandeja.
A hegemonia petista na Bahia não está ameaçada pela oposição. Está sendo corroída por dentro, pela soberba, pelo isolamento e pela ilusão de que a máquina substitui alianças. A história é implacável com projetos que confundem lealdade com submissão.
O rompimento com Ângelo Coronel pode não ser um detalhe de bastidor. Pode ser o primeiro estalo audível do fim de um ciclo.
Desperta Bahia
Nilton Vasques Carvalho
Jornalismo com opinião, sem maquiagem e sem medo da verdade DRT 7960/BA