*São João em “análise” ou narrativa em reconstrução?*
A declaração do prefeito Gustavo Carmo de que o São João não foi cancelado, mas apenas “suspenso para análise”, levanta mais dúvidas do que esclarecimentos. Na prática, a diferença entre suspensão indefinida e cancelamento técnico é quase semântica, especialmente para comerciantes, ambulantes e trabalhadores que dependem diretamente da festa.
O discurso oficial aponta para a necessidade de priorizar a reconstrução da cidade após os impactos das chuvas. Justo. Necessário. Indiscutível. O problema não está na prioridade, mas na forma como a narrativa é construída: primeiro, a sinalização de que o São João não aconteceria; depois, o recuo estratégico diante da repercussão negativa.
A gestão tenta agora reposicionar o discurso, afirmando que “não há cancelamento”, mas também não apresenta qualquer planejamento concreto, cronograma ou garantia mínima de realização. Fica no campo das possibilidades: “se dá pra fazer no estádio”, “se não dá”, “formatos alternativos”. Tradução prática: ninguém sabe de fato o que vai acontecer.
E é justamente essa incerteza que gera prejuízo.
O São João de Alagoinhas não é apenas uma festa, é um motor econômico. Em 2025, foram mais de 150 mil pessoas e cerca de R$ 20 milhões circulando na economia local. Esses números não são simbólicos; representam renda real para quem vive do comércio informal, da hotelaria, da alimentação e dos serviços.
Suspender decisões nesse contexto não é apenas prudência administrativa, é também ausência de previsibilidade econômica.
Além disso, é inevitável questionar: se o município já enfrentava limitações estruturais, por que não houve planejamento prévio para cenários de crise? A chuva pode até ser imprevisível, mas a falta de planejamento não deveria ser.
Ao afirmar que “não está cancelado”, a gestão mantém uma porta aberta politicamente, mas não oferece segurança nenhuma para a população. E, no fim, isso pode ser ainda pior do que um cancelamento claro: cria expectativa sem compromisso.
O que Alagoinhas precisa neste momento não é apenas de reconstrução física, mas de transparência e objetividade. Dizer a verdade, mesmo que dura, ainda é melhor do que sustentar uma incerteza confortável.
Porque, no fim das contas, o São João pode até não estar cancelado no papel, mas, para muitos, ele já começa a desaparecer na prática.